sexta-feira, 28 de junho de 2013

[Sem nome]

Ela irá tecer inúteis prováveis diálogos
Mas desfaça os nós da fantasia
E ouça a realidade

Seus suspiros e batimentos

Summer Interior, de Edward Hopper

sábado, 8 de junho de 2013

Praticar

Se o sonho não cabe mais em você, a ação está atrasada.

La Desintegración de la Persistencia de la Memoria, de Salvador Dalí

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pseudoestima

O que declama a sua beleza
é a mesma voz que lhe atormenta
ao ser desprezado.
É o ruído do véu cinza transparente
que tremula ao toque alheio.
Este manto são só palavras
que perfuram o crânio
nas madrugadas do insone.
O tecido é indestrutível,
mas a voz, quando não ouvida,
parece calar-se.
Contemple o silêncio que brada
quem veste o véu.

Les amants II, de René Magritte

sábado, 23 de março de 2013

Continuum

Respire.
O que você procura é o grão de areia no Índico
A gota no curso de um ribeiro
O som e a fúria da queda de uma árvore num bosque
A pétala esvoaçante de uma hortênsia
A cinza fumegante do tabaco
Largue essa taça.
Não tenhas mais receio do espelho
O que vês não é o bem e o mal
(Essa simplória dicotomia)
Mas o espectro de uma palavra-sentença que nos distingue
- Eu.

Huxisanxiaotu, pintura da Dinastia Song


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Uma moeda

Ininteligíveis não são certos poemas
A poesia de uma abstrata pintura
A melodia de uma fantaisie
Mas a dúvida...
Vazia de significados, promessa de
Significantes
Refúgio do suspeito
Resolução procrastinada
Há quem pense ser
Excitante
- Jamais poderei apreender.

The evening gown, de René Magritte

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Litteris

Inspiração é argumento de baixa estima
vivo é o ímpeto
ao som de noturnos numa tarde quente
hedonista e lânguida
de executar aquilo que admira
expor visceralidades e paixões
ignorando (auto)crítica

O segredo da arte é hábito

La tentative de l'impossible, de René Magritte

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Fagulha

Num momento de aparente inconclusão
em meio à tormenta dos olhos
e à exaustão ressaltada
uma gravura, uma palavra, uma promessa
tornam-se não produto do acaso
mas recompensa de uma esperança antiga
empoeirada
do fundo de uma gaveta

Golconde, de René Magritte

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Luar gélido

Às vezes aprecio a Lua e pergunto-me se também estás extasiado por esta visão.
Apenas vislumbro o esboço de que não quero sentir-me como Ismália... afogada em uma doce utopia.

Sterrennacht boven de Rhône, de Vincent van Gogh

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

(Mário Cesariny)


Small Train Station at Night, de Paul Delvaux

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Extinguir

What Else is There?, de Röyksopp:



"I am the storm, I am the wonder
And the flashlights, nightmares
And sudden explosions
..."

Estava lendo em meu quarto, jogada na cama. Terra Sonâmbula do Mia Couto teimava ficar entre minhas mãos. O computador emitia uma luz azulada e Morning Glory do Jamiroquai.

Meus pais assistiam à televisão na sala; podia escutar qualquer burburinho. Ouvi passos aflitos. Bateram à porta. Minha avó dizia desesperadamente que o Sol ia explodir.
- Como?! Mas isso não tem como acontecer!
- Olhe o noticiário!
Decidi deixar o livro ao lado do abajur com formato de Saturno e finalmente saí do quarto. Todos os canais mostravam o Sol inchado, vermelho-laranja. Voltei e abri a janela do meu espaço. O céu não era mais azul e a estrela estava colossal.
Atravessei o quarto correndo, desejando a sala. Meus pais estavam no corredor, entre os dois ambientes. As lágrimas escapavam dos meus olhos como águas de uma comporta recém-aberta. Senti que morreria naquele momento e tentei dar minhas mãos a eles para que morrêssemos juntos e com breve conforto.

Não consegui alcançar nem seus dedos.




Acordei.

Sunrise by the Ocean, de Vladimir Kush