terça-feira, 3 de novembro de 2009

Não enche


Le modele rouge, de René Magritte


"Me larga, não enche
Você não entende nada
E eu não vou te fazer entender...

Me encara de frente
É que você nunca quis ver
Não vai querer, nem vai ver
Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver
Me deixa viver, me deixa viver...

Cuidado, oxente!
Está no meu querer
Poder fazer você desabar
Do salto, nem tente
Manter as coisas como estão
Porque não dá, não vai dar...

Quadrada! Demente!
A melodia do meu samba
Põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar, me deixa cantar
Me deixa cantar, me deixa cantar...

Eu vou
Clarificar
A minha voz
Gritando
Nada mais de nós!
Mando meu bando anunciar
Vou me livrar de você...

Harpia! Aranha!
Sabedoria de rapina
E de enredar, de enredar
Perua! Piranha!
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Pra rua! Se manda!
Sai do meu sangue
Sanguessuga
Que só sabe sugar
Pirata! Malandra!
Me deixa gozar, me deixa gozar
Me deixa gozar, me deixa gozar...

Vagaba! Vampira!
O velho esquema desmorona
Desta vez pra valer
Tarada! Mesquinha!
Pensa que é a dona
E eu lhe pergunto
Quem lhe deu tanto axé?
À toa! Vadia!
Começa uma outra história
Aqui na luz deste dia "D"
Na boa, na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou vou viver mil
Eu vou viver sem você...

Eu vou viver sem você
Na luz desse dia "D"
Eu vou viver sem você..."

(Caetano Veloso - Não Enche)


... e com esse música me despeço de todos os pusilânimes que surgiram no meu caminho.
¡Adiós!


quinta-feira, 26 de março de 2009

Extinguir

Ouça What Else is There?, de Röyksopp:



"I am the storm, I am the wonder
And the flashlights, nightmares
And sudden explosions
..."

Estava lendo em meu quarto, jogada na cama. Terra Sonâmbula do Mia Couto teimava ficar entre minhas mãos. O computador emitia uma luz azulada e Morning Glory do Jamiroquai.

Meus pais assistiam à televisão na sala; podia escutar qualquer burburinho. Ouvi passos aflitos. Bateram à porta. Minha avó dizia desesperadamente que o Sol ia explodir.
- Como?! Mas isso não tem como acontecer!
- Olhe o noticiário!
Decidi deixar o livro ao lado do abajur com formato de Saturno e finalmente saí do quarto. Todos os canais mostravam o Sol inchado, vermelho-laranja. Voltei e abri a janela do meu espaço. O céu não era mais azul e a estrela estava colossal.
Atravessei o quarto correndo, desejando a sala. Meus pais estavam no corredor, entre os dois ambientes. As lágrimas escapavam dos meus olhos como águas de uma comporta recém-aberta. Senti que morreria naquele momento e tentei dar minhas mãos a eles para que morrêssemos juntos e com breve conforto.

Não consegui alcançar nem seus dedos.




Acordei.

Sunrise by the Ocean, de Vladimir Kush

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O que Capitu teria dito antes de partir

"(...) É esse o seu modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante

Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar (...)"

Capitu, de Luiz Tatit

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"O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.
- E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; - que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção..." (p. 171).

- Agora sei que a injúria lançada não é explicada por uma convicção sincera... mas pela sua covardia. Sim, és covarde! Os ciúmes não foram provocados pela semelhança entre Ezequiel e Escobar... é ilusão. Não suportas a minha força... e repulsas a idéia de ter sido submissa a outro.

"Ao cabo de alguns meses, Capitu começara a escrever-me cartas, a que respondi com brevidade e sequidão. As dela eram submissas, sem ódio, acaso afetuosas, e para o fim saudosas; pedia-me que a fosse ver." (p. 177).

"Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada." (p. 183).



La magie noire (1935), de René Magritte

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ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 30 ed. São Paulo: Ática, 1997.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Em todas as ruas te encontro

Ouça Röyksopp - Sombre Detune:




Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

(Mário Cesariny)


(Small Train Station at Night, Paul Delvaux, 1959)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Com quantas cápsulas se faz um coração

Para conscientes (Portishead - Glory Box):



Para inconscientes (Jamiroquai - You Give me Something):



Não é novidade para alguns, mas a imagem que ilustra o texto é a obra Les amants (1928), de René Magritte.



Eu perguntava: "Por que você me ama?" e você dizia: "Não sei. Tentar descrever sentimentos com a linguagem é praticamente um crime. A língua é uma maldição.".
Questionei e torturei outros que afirmavam amar alguém. "Amo pelo intelecto"; "simplesmente ele nasceu para mim"; "eu a amo como meus amigos, mas faço sexo com ela"; "acredito em poliamor, não acredito em namoro"; "eu o amo como meus amigos, mas faço sexo com ele (mas sinto ciúmes)"; "eu gosto dele, mas não quero me apegar; não consigo ficar com ele pois nem compreendo meus sentimentos, como irei acreditar nos dos outros?"; "eu o amo porque ele me faz feliz; pensava que não era romântica, mas ele me mostrou como é bom ser assim"...

Há quem diga que o amor é uma droga. Digo mais! É uma loucura que pode fazê-lo sentir as coisas mais bonitas, coloridas, cintilantes! Ou mostra formas distorcidas, paisagens destroçadas, traz arrepios com desespero...
Vício. Aqueles que se declaram reabilitados ou que nunca se deixaram levar pelo doce sabor de algumas sensações estão iludidos.
Experimentaram sem querer. Uma violência.
Após uma fase de abstinência, um amigo disse: "Calma! Irá passar! Você não diz que nascemos e morremos todos os dias, que o sono é uma pequena morte?".

Todo dia uma batalha é iniciada; perderá a guerra quem não aceitar e preferir uma dose letal.

(...)

---
De quantas facas se faz o amor
de quantas pedras se faz o vício

de quantos homens se faz o medo

de quantas noites se faz a morte

de quantas vidas se faz uma criança

de quantas ternuras se faz o tédio
de quantas horas

será feita a esperança que guardo

com sons de corpo arrastado

de quantas grutas será feita

esta humildade nas veias

que me acordam
de quantos poros será feito o mistério
de quantos gritos será feita uma religião
de quantos ossos será feita
a maldade
de quantos crimes será feita
esta lua que mal começou

e já me deixou no hábito de apurar

os sentidos
(Fernando Lemos, poeta e artista gráfico surrealista português)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O que você vai ser quando você crescer?

Para ouvir a música da letra exposta ao longo do texto - acredite, ela não está "incorreta" (Daft Punk - Harder, Better, Faster, Stronger), clique abaixo:




A imagem que ilustra o texto é um dos pôsteres do filme Trainspotting (1996); o texto é de John Hodge.


Após três anos e meio de faculdade, foi inevitável encarar turmas e mais turmas de Ensino Médio durante o estágio obrigatório. Não foi exatamente uma novidade para mim, aceito o ofício desde 2006. E não estou longe dos dezesseis, dezessete anos.
(Work it... make it... do it... makes us...
Harder, better, faster, stronger)

Li uma crônica e discuti sobre tal gênero textual em salas de terceiro ano. Pedi uma produção de texto a partir de algo cotidiano. Após auxiliar alguns alunos que estavam tentando escrever, fui conversar com um que não havia nem sequer começado. Não quis questionar "Por que você não está escrevendo?", decidi satisfazer uma curiosidade:
- O que você quer fazer depois do Ensino Médio?

- Não sei...
Ele mal conseguia olhar meu rosto, talvez tenha estranhado a pergunta... provavelmente esperava outro tipo.
(More than, hour, our, never
Ever, after, work is, over)
- Ah, mas o que você gosta de fazer?
- Preciso passar primeiro... já repeti um ano...
- Mas você não tem nada em mente? O que você faz fora da escola...?
- Como, durmo...
Não quis continuar com perguntas. Elas eram mesmo para ele?
(Work it harder, make it better, do it faster, makes us stronger
More than ever hour after our work is never over
Work it harder, make it better, do it faster, makes us stronger
More than ever hour after our work is never over...)


sábado, 6 de setembro de 2008

Perto demais

Para ouvir a música da letra exposta ao longo do texto (The Rapture - Don Gon Do It), clique abaixo:



A imagem que ilustra o texto é a obra Le double secret (1927), do pintor surrealista René Magritte.

(High... high...
High... high...)

Início de tarde extremamente quente em São Paulo. Estava num trem do metrô, sentado num assento do último vagão, de costas em relação ao sentido da linha e ao lado de uma janela. O transporte me levava ao centro.
(High, high as the sky
Low, low as it goes)

Estação Carrão. Gosto desse trajeto; há somente um túnel antes da Sé... dessa forma é possível apreciar o céu, o sol (ou a lua!), algumas árvores, a longa avenida, muitos edifícios e os formigueiros de automóveis, de ônibus, de pessoas. Um rapaz embarcou e sentou ao meu lado. Era inquieto e possuía um sorriso estranho que ocupava boa parte do seu rosto moreno. Desviei o olhar; não sei dizer se não conseguia encarar aquela face ou queria continuar vendo através da janela.
Estação Tatuapé. Muitas pessoas embarcaram. Uma garota de uns vinte anos entrou no trem e sentou no banco mais próximo, "de lado". Não era daquelas que chamam muita atenção, mas tinha um semblante agradável. Estava com uma mochila; pude reparar no objeto porque a "menina" passou a procurar algo dentro dele.
(Purple dragons flying through your eyes
Milk shake chili crying, cry and cry)

Mexia e remexia, caçava algo. Mas com uma mão só, a outra segurava um copo de milkshake. O moço de sorriso esquisito resolveu se pronunciar, só Deus sabe o porquê:
- Ainda tá R$ 4,00?
A menina da mochila respondeu, aparentemente pasma com a pergunta:

- O quê?

- O milkshake. Ainda tá R$ 4,00?

- Não, paguei R$ 6 e pouco.
- Nossa... tá caro, né?
(Get on and don gon do it, get on and make me cry
Get on and don gon do it, get on and make me cry

Get on and don gon do it, get on and make me cry

Get on and don gon do it, get on and make me cry)

A moça já havia desviado o olhar e continuava a procurar sei lá o quê, mas agora com um certo desespero. O copo de milkshake atrapalhava a busca.

- Quer que eu segure o copo?

- Não, não... obrigada.

A procura continuava. Estação Belém.

- Não quer que eu segure mesmo...?
- Ai, obrigada...
Finalmente ele conseguiu ajudá-la segurando o maldito copo.
(High, high as the sky
Low, low as it goes)

- Ufa...! Obrigada, viu...?
- Imagina...

- Pensei que tivesse perdido a carteira...

- Nossa, você achou?

- Sim, sim...

- Que bom, né? Muito ruim perder a carteira...

- Quer um pouco depois? - ela apontou para o milkshake.
(Words are catchless wripping hypnotize
Why'd you say those things? Why'd you lie?)

- Se você não quiser mais... eu tomo... Qual é seu nome?
- Fernanda. E o seu?
- Alex... prazer!

Ele estendeu a mão para ela apertá-la. Tentou dar um beijo no rosto, mas a menina recusou.
(Get on and don gon do it, get on and make me cry
Get on and don gon do it, get on and make me cry
Get on and don gon do it, get on and make me cry
Get on and don gon do it, get on and make me cry)

- Aí você já tá querendo demais...
- É, né... aquele que pede a mão e já quer o braço...
A garota deve ter aceitado a conversação por algo parecido com pena, afinal qualquer um julgaria que ele era meio louco.

- Você tá indo pra onde? Eu tô indo pro trampo... pra Santana... e você?
- Ah, eu vou até o final...
Provavelmente a garota não quis dizer exatamente onde desceria.
(High... high...
High... high...)
- Poxa, eu não consigo deixar de comer no Mc quando vou no shopping...

- Eu gosto também, mas hoje só tive tempo pra tomar isso...

- Cê tá indo pro trabalho?

- Não, não... pra faculdade.

- Ah, eu também quero fazer facul...
(Notes, notes to turn
Love, love it burns)

Por um momento o rapaz ficou quieto, pensando.
- Precisa ter faculdade pra ser vereador?
- Acho que não...
- Ah! Então daqui a quatro anos você já sabe em quem votar!

A menina soltou um riso meio tímido, sem graça.
(Hey, no man's broken heart in life
You are so fucked up I wish you die)

- Você faz o que na facul?
- Letras...
- Letras? Olha... desculpa a ignorância, mas... a pessoa que faz Letras faz o quê? Tipo... se alguém chegar assim e... pedir pra pessoa construir algo, um prédio... ela faz?
Ela deu um riso espontâneo dessa vez e confesso que também ri por dentro.
(Get on and don gon do it, you gonna make me cry
Get on and don gon do it, you gonna make me cry
Get on and don gon do it, you gonna make me cry

Get on and don gon do it, you gonna make me cry)

- Não... geralmente dá aulas... de Português...
- Ah... mas nossa... quero muito fazer facul...
- Bacana, boa sorte... toma o milkshake...
- Puxa, obrigado...
Estação Sé.
- Bom, tenho que ir... é Fernanda, né?
- Isso...
- Tchau, Fernanda! Tudo de bom, heim?!
- Tchau, Alex...

Diabos... quem ali era são?
(High... high...
High... high...)